• Livro: A Pequena Sereia
  • Autor: H. C. Andersen
  • Ano de publicação: 1837
  • Nota: 4/5
  • Iniciei em: 25/02/2026
  • Terminei em: 01/03/2026
  • Por que decidi ler esse livro: eu gosto muito de ler clássicos, e quando achei essa versão absurdamente bonita num Sebo, aproveitei!
A Pequena Sereia
A Pequena Sereia

Sobre o livro

Muito antes da versão da Disney transformar a pequena sereia em um dos contos mais populares da cultura pop, Hans Christian Andersen escreveu uma história bem mais melancólica, estranha e dolorosa.

A Pequena Sereia é um conto curto, mas carregado de símbolos. Em vez de apostar apenas no encantamento de uma história de amor, Andersen constrói uma narrativa sobre desejo, renúncia, sofrimento e transformação.

A sereia não quer apenas conquistar o príncipe. Ela quer ultrapassar os limites do próprio mundo, viver outra forma de existência e alcançar algo que está além da vida no mar.

Curiosidade: no livro ela não recebe um nome. Foi a Disney que batizou a Pequena Sereia de Ariel!

A leitura é fácil, rápida e eu recomendo muito essa versão em específico por conta das ilustrações! Feitas por Loputyn, elas verdadeiramente dão vida e sentimento às de uma maneira única à cada trecho da história.

As ilustrações de Loputyn fizeram a diferença!
As ilustrações de Loputyn fizeram a diferença!

Spoiler Alert: se você não gosta de spoilers, precisa parar por aqui. Mas recomendo fortemente que você leia o livro e, se quiser ver meus pensamentos sobre ele depois, vai ser um prazer te ter de volta aqui!

A Resenha

Desde pequena, a Pequena Sereia é diferente do restante. Ela era a mais bela entre as sereias, sim, e também a que tinha a mais bela voz dos oceanos.

Mas não era isso que a tornava única: seu estilo de vida e até seu jardim sempre foram diferentes dos de suas irmãs.

E isso se reflete também nos seus desejos: ao completar 15 anos, as sereias podiam emergir pela primeira vez. Ganhavam a permissão de subir à superfície e ver o que havia por lá.

De ir além dos limites do mundo em que viviam até então.

Desejo ou Propósito?

Apesar de amar sua família, parece que sua vida girava em torno dessa possibilidade, com uma ansiedade evidente.

E quando finalmente chega sua vez, ela acaba conhecendo (e salvando) o príncipe de um naufrágio. E essa experiência a marcou profundamente.

O príncipe, contudo, estava desacordado, e nunca soube como foi parar na praia depois do acidente.

Ao acordar, ele se depara com uma jovem que veio ao seu socorro e, ao ver que o príncipe agora ficaria bem, a pequena sereia volta para sua casa.

Desde então ela pensava no príncipe a todo momento, e esse amor passou a ser sua razão de existir.

E essa razão só é ainda mais reforçada quando a sua vó conta sobre os humanos e como eles possuem uma “Alma imortal”. Diferente dos humanos, as sereias podem viver até 300 anos, mas quando enfim morrem, viram apenas “espuma do mar”.

Já os humanos, a avó continua, possuem uma alma imortal, e podem viver indefinidamente essa vida espiritual após a vida terrena.

Isso sela o desejo da pequena sereia, que decide se tornar humana para poder viver com seu príncipe e conquistar uma alma imortal.

Do que é preciso abrir mão?

O que a pequena sereia queria, contudo, não era nada simples. Por isso, ela acaba tendo que recorrer à bruxa malvada dos mares.

A bruxa, por sua vez, pede um preço muito alto à pequena sereia:

  • primeiro ela viveria em dor: ao trocar sua cauda por pernas humanas, cada passo que ela desse seria como se pisasse em espinhos e como se espadas atravessassem seu corpo
  • além disso, para de fato conquistar a alma humana, ela precisaria conquistar o amor do príncipe. Caso ele se casasse com outra, a pequena sereia viraria espuma do mar no mesmo instante!
  • E se já não fosse o bastante, ela teria que dar à bruxa o que ela tinha de mais valioso: sua linda voz. E não só teria mais o seu maior atributo, como teria que conquistar o príncipe sem poder falar.

Esse foi de longe o momento mais marcante para mim. Seja sincero:

Você abriria mão de tudo isso por seu propósito?

É assustador só de pensar… mas a nossa corajosa (talvez ingênua?) heroína não pestaneja e aceita as condições.

Após tomar a poção da bruxa, a pequena sereia desmaia, e acorda com pernas no lugar de sua cauda!

Alcançando seu sonho?

A sereia consegue encontrar o príncipe e rapidamente eles se afeiçoam. Apesar de não conseguir falar, ela consegue demonstrar ao príncipe o quanto se importa com ele.

E, verdade seja dita, o príncipe também demonstra seu afeto a ela, mas não de forma romântica. Eles viram parceiros de aventuras e bons amigos, não um casal.

A pequena sereia consegue viver parte da vida que sempre sonhou, mas conquistar o príncipe parece fora de seu alcance.

Até que o rei, pai do príncipe, comunica que ele irá casar com a filha do reino vizinho para reforçar a aliança entre eles.

Nesse momento, o príncipe (que também é um adolescente com 16 anos) se revolta e confessa a pequena sereia que não vai aceitar essa decisão.

Que ele quer se casar somente com uma pessoa (que na cabeça dele, inclusive, é muito parecida com ela): a jovem que o salvou na praia depois do naufrágio.

A pequena sereia, sem poder avisar seu grande amor que havia sido ela quem o salvou, fica presa nessa agonia, mas feliz por saber que o príncipe não iria casar agora.

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A dura realidade

Ao encontrar a tal princesa do reino vizinho, contudo, acontece algo que nem a sereia, nem o príncipe, esperavam.

A princesa é justamente a jovem que o havia acordado à beira da praia no dia do naufrágio, e a quem o príncipe atribuía seu salvamento.

Esse novo amor sela o destino da sereia, que ainda é obrigada a conviver (sofrer) alguns dias com o casal, acompanhando eles em suas aventuras juntos.

Até que chega o dia do casamento e, antes do dia amanhecer (que seria quando ela viraria espuma do mar), suas irmãs emergem e chamam a pequena sereia.

Elas estão sem cabelos, e explicam para a irmã que abriram mão dos seus cabelos (que eram suas maiores preciosidades) para a bruxa lhes dar uma solução que salvasse a caçula.

Só que essa solução é uma adaga que ela precisaria usar para matar o príncipe. O sangue dele transformaria as pernas dela de volta em rabo de peixe, e ela poderia voltar e viver 300 anos com as irmãs.

Ela agradece e pega a adaga. Se direciona até o quarto e vê o casal ainda dormindo. Olha o príncipe uma última vez.

Sai do quarto, taca a adaga no mar e fica olhando o nascer do sol, esperando virar espuma do mar.

Redenção?

Aqui o conto é pesado. Ela não volta a viver com as irmãs, nem fica com o príncipe. Ela realmente vira espuma do mar.

Mas a pequena sereia recebe uma chance que a bruxa não havia previsto: por ter sido tão boa com suas ações ao longo da vida, ela se torna uma “filha do ar”, um espírito que, se praticar boas ações por 300 anos, ganha a chance de virar uma alma imortal como a dos humanos.

A pequena sereia se emociona e, agora como espírito invisível flutuando sobre navio, olha uma última vez ao príncipe e parte para sua longa provação.

Onde o conto deixa a desejar

É um conto bonito e traz mensagens e simbolismos bem fortes. Mas a narrativa tem algumas fragilidades que acabam minando o seu poder.

Por exemplo, quando a sereia decide encontrar a bruxa, a bruxa nunca havia sido mencionada antes! E o próprio amor da sereia pelo príncipe e por uma alma humana não está ainda tão bem embasado naquele momento.

O final também parece ter sido somente para “cumprir tabela”, pois as filhas do ar explicam como crianças boazinhas ajudam a tirar anos da penitência das filhas do ar, enquanto uma criança malvada aumenta essa penitência.

Parece um final feito só para que o livro se enquadrasse em “conto infantil” e os pais pudessem usar para estimular os filhos a serem eles mesmos bonzinhos.

Mas toda a história faz realmente sentido quando você entende a história do autor.

O Autor e a Pequena Sereia

É impossível separar a história do livro da história do autor. Inclusive, ler o texto final que essa versão da Darkside traz nos faz entender muito melhor a história da pequena sereia.

O autor tinha, ele mesmo, um amor impossível. Era apaixonado pelo filho de seu patrono e um de seus melhores amigos.

Esse amor, contudo, só era correspondido no nível de amizade, não romântico.

A pequena sereia é uma linda e elaborada carta de amor.

Fun fact: Andersen também é o escritor de diversos outros contos infantis famosos, incluindo o Patinho Feio!

De um leitor para outro,

Jorge Weigmann


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Categorias: Resenhas