• Resenha: O despertar de tudo
  • Autor: David Graeber e David Wengrow
  • Ano de publicação: 2020
  • Nota: 3/5
  • Iniciei em: 02/01/2026
  • Terminei em: 20/02/2026
  • Por que decidi ler esse livro: esse foi o primeiro livro do Ano. O que mais me fez ter curiosidade pelo livro foi que o Nassim Taleb (um escritor que gosto muito) recomendou. Além disso, gosto muito de entender melhor o início da organização em sociedade e esse livro se provou ótimo para isso.
Essa foi a opinião do Taleb que me fez querer ler esse livro
Essa foi a opinião do Taleb que me fez querer ler esse livro

Sobre o livro

Esse é um livro bastante ousado.

De certa forma, ele se propõe a “reescrever a história”, ou pelo menos nos fazer perceber que a “história padrão” estabelecida talvez não seja bem assim.

Se você gostou de Sapiens (Yuval Harari), eu diria que “O despertar de tudo” é uma leitura obrigatória.

Isso porque o Sapiens nos apresenta a história justamente nesse formato padrão que “O despertar de tudo” tenta quebrar.

Inclusive, os autores citam o Harari por diversas vezes, explicando como e por que discordam de vários de seus posicionamentos.

Tenho que admitir que o livro abriu minha cabeça de formas que eu nem imaginava, e me fez enxergar como realmente temos algumas crenças intelectuais tão enraizadas que nem percebemos mais que não são necessariamente verdadeiras.

Mas antes de falar disso, quero falar do que eu acredito que poderia ser melhor.

A experiência de leitura

Não foi uma leitura nada fácil. Fico feliz por ter sido a minha primeira leitura do ano, porque estava “fresco” para conseguir continuar apesar das dificuldades.

Para começar, é um livro grande e pesado. Se isso é algo que te incomoda, recomendo a versão do Kindle. Mas vale ressaltar que o livro tem alguns mapas que não devem ser tão fáceis de ver no Kindle.

O despertar de tudo
O despertar de tudo

Agora falando da leitura, ele tem uma linguagem desnecessariamente rebuscada (acadêmica?).

Para ser justo, não sei se isso é culpa dos autores ou dos tradutores, mas o fato é que não é uma leitura nada fácil.

E se a linguagem em si não fosse o suficiente, a estruturação das ideias é também bastante complexa.

Eles vão e voltam em exemplos, abrem ramificações para explicar algo novo e muitas vezes não fecham a ramificação, e por aí vai.

Ou seja, tornam ainda mais confuso de entender algo que, por natureza, já seria complexo. Eu confesso que esse ponto quase me fez desistir, mas como não queria “largar” o livro antes de ler pelo menos 20% dele (o que nesse caso dá mais de 100 páginas…), eu continuei (e depois não quis mais largar).

Para terminar essa seção, também preciso apontar uma falácia que percebi. Os autores criticam (ao meu ver com razão) como a “história-padrão” se baseia em exemplos que comprovam o que ela diz, mas “descarta” exemplos que a contradizem.

Contudo, os próprios autores fazem isso diversas vezes ao longo do livro, trazendo exemplos pontuais para “comprovar” a tese que defendem no momento.

Ainda assim, acredito que vale muito a pena ler esse livro.

Ele é extremamente transformador, apesar dessas dificuldades.

Resenha: O despertar de tudo

O principal mérito dele, pra mim, é quebrar uma ideia muito enraizada na nossa cabeça: a de que a história humana é um caminho que “tinha” que ser assim.

Um roteiro em que, quanto mais complexa a sociedade fica, mais hierarquia, mais dominação, mais Estado.

O livro insiste numa coisa que parece óbvia, mas que a gente quase nunca considera: sociedades diferentes, em contextos parecidos, fizeram escolhas políticas diferentes. E fizeram isso deliberadamente.

Ele não trata a política como um detalhe que aparece depois da tecnologia. Ele trata a política como parte do motor.

E aí entram as duas ideias que mais ficaram comigo.

As três liberdades

Quando a gente fala em liberdade hoje, normalmente pensa em coisas como liberdade de expressão, liberdade de escolha, liberdade para “ser quem você quiser”.

É uma liberdade muito ligada ao indivíduo.

Você pode dizer o que quiser. Pode escolher sua profissão. Pode buscar sua felicidade do seu jeito.

Só que o livro faz uma virada interessante: ele sugere que esse tipo de liberdade, apesar de importante, não é necessariamente o núcleo da liberdade humana. É uma versão mais recente, mais jurídica, mais abstrata.

Graeber e Wengrow propõem olhar para formas de liberdade mais concretas, mais sociais, que teriam sido, por muito tempo, praticamente pressupostas (e os exemplos que eles trazem para embasar isso são muito legais!):

Eles resumem isso em três liberdades básicas:

  1. A liberdade de ir embora ou se estabelecer em outro lugar.
  2. A liberdade de desobedecer, ou simplesmente ignorar ordens.
  3. A liberdade de criar e transformar relações sociais, inclusive alternar entre diferentes formas de organização coletiva.

Essa mudança de foco é sutil, mas poderosa.

Não se trata apenas de ter “direitos” garantidos por lei. Trata-se de, na prática, poder sair de uma situação opressiva. Poder não obedecer sem que isso te condene à exclusão total. Poder reorganizar a forma como as pessoas vivem juntas.

O livro ainda faz uma provocação que me marcou: muitas das liberdades que a gente trata como essenciais são, no fundo, solitárias.

  • Você pode ser livre para falar. Mas se ninguém escuta, qual é o alcance real disso?
  • Você pode ser livre para buscar sua felicidade. Mas se isso só é possível à custa do sofrimento de alguém, que liberdade é essa?

Mas o mais importante, ao meu ver: a crítica aqui não é contra a liberdade individual. É contra a redução da liberdade a algo puramente privado.

A pergunta que fica é: quanta liberdade social real nós ainda temos?

As três dominações (ou “A definição de Estado”)

Um dos pontos mais interessantes do livro é a definição de Estado.

Os autores partem de três princípios de dominação que, segundo eles, acabaram se transformando nas instituições que hoje reconhecemos como centrais no Estado moderno.

1. Controle da violência

No mundo contemporâneo, isso aparece como soberania: o monopólio do uso legítimo da força dentro de um território.

A ideia de que existe uma autoridade capaz de impor regras, inclusive pela coerção.

É curioso que, na Antiguidade, esse poder “absoluto” muitas vezes fosse mais limitado do que parece.

Em vários casos, o rei exercia violência arbitrária apenas num espaço restrito ao seu redor.

Já no Estado moderno, essa capacidade é ampliada e institucionalizada.

2. Administração (burocracia)

Aqui entra a burocracia no sentido que Max Weber descreve: organizações baseadas no controle da informação, na produção de registros e também em “segredos oficiais”.

O poder não está apenas na força, mas na capacidade de classificar, arquivar, tabular, vigiar.

Quando soberania e burocracia se combinam, o potencial de controle cresce enormemente.

3. Democracia (carisma político)

Mas aqui o livro faz uma distinção importante.

A democracia moderna, baseada em eleições competitivas, funciona como um jogo com vencedores e perdedores.

Não se parece tanto com as assembleias da Antiguidade que deliberavam coletivamente.

Os filósofos gregos, inclusive, não consideravam eleições como método democrático. Para eles, eleições eram aristocráticas, porque selecionavam “os melhores” (ou seja, aqueles com recursos e tempo para serem políticos em tempo integral).

Democrático, no sentido clássico, era o sorteio.

O argumento dos autores é que o Estado moderno reúne essas três dimensões:
monopólio da violência, administração burocrática e competição política.

Essa combinação específica não é tratada como uma essência eterna, mas como um arranjo histórico que acabou se consolidando.

A força da análise está justamente aí: separar os elementos e mostrar que eles têm origens distintas, em vez de tratá-los como se sempre tivessem caminhado juntos.

O que esse livro muda?

Em algum momento, parece que naturalizamos uma história em que tudo leva inevitavelmente ao presente. Agricultura leva a cidades. Cidades levam ao Estado. Estado leva à burocracia e à hierarquia.

Esse trecho exemplifica bem isso:

“Não há como escapar à ordem imaginada”, afirma Yuval Noah Harari em seu livro Sapiens. “Quando derrubamos os muros da prisão e corremos para a liberdade”, prossegue, “estamos na verdade correndo no pátio amplo de um presídio maior.” Como vimos no primeiro capítulo, ele não é o único a chegar a essa conclusão. Quase todos aqueles que escrevem sobre história numa escala maior parecem convencidos de que, como espécie, estamos efetivamente aprisionados, e que não há como escapar das gaiolas institucionais que criamos para nós mesmos. Harari, mais uma vez ecoando Rousseau, parece ter captado a atmosfera hoje predominante.

Se todas as formas sociais são apenas versões ampliadas da mesma prisão, então o máximo que podemos fazer é reformar a cela.

O Despertar de Tudo bate de frente com essa ideia.

Ele não diz que o mundo foi um paraíso igualitário. Não romantiza. Mas mostra, com exemplos históricos concretos, que sociedades experimentaram. Alternaram. Rejeitaram modelos. Desmontaram hierarquias (depois de testá-las).

Criaram outras formas de organização em larga escala sem seguir o roteiro que hoje (olhando pelo retrovisor) parece óbvio.

Talvez as perguntas não sejam “qual a origem da desigualdade” ou “qual a origem do estado”.

Mas sim algo como: “em que momento perdemos a capacidade de imaginar que poderia ser diferente?”

Para terminar essa resenha de O despertar de tudo, transcrevo uma nota de rodapé (que talvez a maioria nem leia, mas que me tocou absurdamente, talvez por enxergar o quanto isso acontece atualmente):

Num brilhante e subestimado livro chamado Domination and the Arts of Resistance (1990), James Scott argumenta que, sempre que um grupo detém um poder avassalador sobre outro, como quando a comunidade é dividida em patronos e servos, senhores e escravizados, casta alta e intocáveis, ambos os lados tendem a acabar agindo como se estivessem conspirando para falsificar os registros históricos. Ou seja: sempre haverá uma “versão oficial” da realidade — digamos, que os proprietários dos latifúndios são figuras paternais benevolentes que apenas têm no coração o melhor interesse de seus escravizados — em que ninguém, nem senhores nem escravizados, realmente acredita, e que todos estarão propensos a tratar com obviamente ridículo quando estiverem “fora de cena” e conversando entre si, mas que o grupo dominante insiste que seus subordinados participem e representem junto, particularmente em uma situação que possa ser considerada um evento público. De certa forma, essa é a expressão mais pura de poder: a habilidade de forçar o dominado a fingir de fato que dois mais dois são cinco. Ou que o faraó é um deus. Como resultado, a versão da realidade que tende a ser preservada para a história é exatamente essa “transcrição oficial”.

De um leitor para outro,

Jorge Weigmann


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